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Bem Vinda

Vem, pode entrar
Tira os sapatos antes
Eles trazem poeira das ruas
Quero-te de pés descalços

Afasta-te das janelas
Suas telas não são minhas
Suas cores não me pertencem
Como pertence a das paredes

Não repara na bagunça
Não sou de receber visita
Nada contra, mas não me apetecem
As figuras no olho mágico

Preparo uma comida
Espero que gostes
Seria um imenso prazer
Se provasses do que ofereço

Dar-te-ei a chave
Se prometeres uma coisa
Não me tranques sozinho,
Não possuo outra cópia

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"You say we’re fatally flawed.
Well, I’m easily bored, is that ok?"

- Sexed Up - Robbie Williams
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"Não que eu tivesse esquecido Hanna. Mas em algum momento a sua lembrança parou de me acompanhar. Ficou pra trás, como uma cidade fica pra trás quando o trem segue viagem. Ela está ali, em algum lugar atrás de nós, e podemos ir para lá e nos assegurarmos de sua existência. Mas por que deveríamos?"

(Bernhard Schlink, O Leitor) 

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É assustador como as pessoas menosprezam esse ato por ser uma tentativa. Parecem verdadeiramente decepcionadas pela falha do indivíduo e não levam a sério essa desistência da vida.Vocês querem o que? Que o cara se mate de vez pra você poder por em uso seus sentimentos de compaixão, culpa e remorso? Até mesmo o autor do gesto, as vezes, olha pra trás e pensa pejorativamente sobre si mesmo. Chega a brilhante conclusão de que “é ridículo fazer algo do tipo ‘só’ pra chamar a atenção”, segundo a fala comum. Fico aqui tentando, mas não posso evitar pensar que ele está extremamente propício a fazer algo assim de novo, só que dessa vez pra valer. Porque afinal, “se é pra fazer, tem que fazer direito”. Alô! Estamos falando de uma vida inteira a ponto de ser jogada fora. Então a solução pra ele é buscar coragem? Isso sim é patético; inclusive, assustador. Por que os seus parentes não simplesmente viram para o indivíduo confuso e lhe dão conselhos? Um conselho não é uma verdade nem uma lei, é simplesmente um opção de caminho a ser seguido. Cá entre nós, quem está perdido na estrada, não ignora uma placa de sinalização. As vezes nem precisa conhecer o destino final, mas só de saber que vai dar em algum lugar já é um conforto.
Sinceramente, pra mim, tudo o que uma pessoa nessa situação precisa, é recomeçar. Mas, a não ser que o espiritismo seja real, ela não vai reencarnar, e se o fizer, não vai lembrar da vida anterior, então não adianta jogar fora essa de agora. O restarte tem que ser puramente mental. Pegar a sua visão de mundo e trocá-la por outra. Retire seus olhos e coloque outros por algum tempo, e então você consegue ler as placas e decidir qual caminho seguir.

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A arte sobressaiu à vida. Aquela que era pra ter apenas um papel de espelho das emoções e pensamentos do homem, tornou-se criadora deles. Pense no cinema. Ele é o maior difusor de ideias dentre as formas de arte. Não digo em termos de qualidade ou de intensidade, o que pra mim elegeria a escrita campeã, mas sim em termos de produtividade. Ou seja: n° de ideias x público atingido / tempo. Aliás, essa aplicação matemática é melhor maneira de se explicar a supremacia da indústria cinematográfica. O cinema, sem dúvidas, atinge muito mais pessoas, com uma produção artística altíssima, e em um intervalo de tempo muito menor. Porém no mundo de hoje, segunda década do século XXI, um filme já não é mais visto como era antes, quando o cinema foi criado. São duas realidades completamente diferentes.  As ideias repercutem de maneiras distintas.
Imagine uma criança, que cresce no ambiente familiar, numa atmosfera caseira e bem tradicional. Ela passa a infância aproveitando cada dia, sem pensar sobre isso. O máximo de influencia que ela recebe são os conselhos dos avós, pais e professores. Então, vem a adolescência. Na explosão de suas confusões e conturbações filosóficas, o adolescente ganha acesso a livros. Ele guarda diversas ideias de diferentes autores, mas a maioria delas, sob reflexão, com personagens criados pelos autores, mas imaginados pelo indivíduo. Ou seja, cada livro é uma mistura das ideias do autor com a realidade e o pensamento do leitor. O cinema chega pra ele como um lazer, um entretenimento, sem muita força ou influência em sua vida. O indivíduo já possui conceitos, valores e ideais que o conduzem em sua vida, o cinema é apenas uma distração.
Agora imagina o 21th century’s teenager. Quando ele nasceu, já existia uma televisão dentro da casa dele que exibia heróis. Ele não precisava mais desenvolver a capacidade de criação e materialização de seus heróis. Os seus melhores amigos de infância não eram imaginários, mas sim personagens prontos com o selo Disney ou Pixar. Ai então ele entra na puberdade, e com ele as dúvidas afloram. Mas, diferentemente dos seus avós, a rotina dele não encontra espaço para o ócio. Os seus familiares não conversam diariamente com ele sobre questões políticas, filosóficas, culturais ou cotidianas. E na sua rotina, o ócio pode ser descrito como o conforto do sofá e o relaxamento da mente para receber valores e ideias sem nenhum senso crítico, sem relativizar ou discordar.
Então, cresceu e continua crescendo alimentado pelas vidas fictícias e nos seus momentos de reflexão, projeta-as na sua própria. Ele projeta um casamento, com a sua alma-gêmea, trabalhando para sustentar sua família, com seu carro na garagem, vivendo felizes para sempre como bons samaritanos. Alguns vão idolatrar, depois, os personagens que fogem à rotina e aos valores embutidos neles pela sociedade. Outros, vão idolatrar o bom capitalista - o cara que se dá bem dentro do sistema, que tem uma mulher linda, um físico digno do Olimpo, o carro invejado por todos, e dinheiro para poder comprar o que lhe der vontade. Na verdade, a influência vai muito mais fundo do que essa projeção de um personagem fictício na sua própria vida.
Ele projeta também as situações - as tramas mirabolantes, os dramas, as maneiras de se divertir, os finais felizes,e os trágicos. Ele transa, pelos motivos que levaram o personagem do filme de ontem a transar, com a pessoa que seu ídolo escolheria. Tenta representar a performance do seu deus grego na cama e busca o amante que mais se aproxima do ícone sexual dele. O jovem faz de tudo pra preservar suas amizades, não porque ele desenvolveu uma consciência sobre o valor delas, mas sim porque se ele não tiver o amigo de infância quando ficar velho, não vai ter como relembrar o passado e rir na varanda, jogando cartas. Ele já imagina tudo o que deve fazer em cada situação que possa vir a ocorrer, desde ter um filho até uma catástrofe climática, que, para ele, é um risco iminente e constante. Ele dramatiza suas discussões, e “sabe” o que o outro pensa e as suas intenções para ter fazer o que faz, e, geralmente, as causas se resumem a atingir o protagonista. Daí se identifica a emergência do egocentrismo adolescente na atualidade.
É comum ver jovens que já pensaram em como suas vidas dariam um bom filme, e também os mesmos pensam diversas vezes como sua vida seria boa se fosse que nem a da tela de cinema. Surpresa : a vida não dura 2 horas e meia! Até que eu acho que eles sabem disso, mas a sua solução é projetar um filme pra cada situação, completando, assim, todos os anos de sua vida. Não é coincidência o aumento expressivo do número de jovens bebendo e se drogando, em estado de depressão e com tendências suicidas. A pessoa passa a ir à festas e a ficar bêbado, porque ela quer sentir o que vê na TV. Além disso, cada sentimento seu tem que ter suma importância na vida alheia, afinal o sentimento da novela a comoveu, então o seu também tem que comover os corações alheios. Com esse aumento das expectativas, aumentam as decepções. E assim, vai se formando um indivíduo descontente, infeliz consigo mesmo por não ser tão perfeito como o seu ídolo, fictício, e enojado do mundo, que não atende às suas expectativas e, por esse motivo, “é um péssimo lugar para se viver, cheio de pessoas que não ligam umas para as outras”. Pode ter certeza que as tentativas de suicídio são, em sua maioria, uma reprodução do drama cinematográfico. É uma última tentativa de chamar a atenção das “pessoas frias” ao seu redor. Até porque, se o ser humano não conseguiu se matar, é porque teve medo e sabe que não quer deixar o mundo e nem abrir mão da sua vida. Não quer ver a tela se apagar após a subida dos créditos.
-Salve o medo! Protetor fiel da nossa integridade e um dos poucos instintos naturais indomáveis, que permanecem conosco não importa a influência externa.- 
Não estou dizendo que o ser humano não queira buscar essas sensações, nem que a vivência delas seja falsa. Simplesmente, esses desejos não nascem mais instintivamente, mas que são apenas repetições. O que acontece hoje é que não somos originais. Não conseguimos expor e contribuir com nossas características naturais. Estamos sempre reproduzindo aquilo que idealizamos do cinema. Os longa-metragens tomaram conta de nossas vidas. Ocupam a televisão, o que lhes fornece contato diário conosco. De fato, ditam o nosso comportamento, a moda e os ideais a serem difundidos em massa. Compramos as roupas que os atores usam, agimos e expomos as mesmas ideias que eles, e não trazemos nada de original para a nossa vida. Não contribuímos com a nossa essência, com as características puramente intrínsecas nos nossos genes. Não construímos a nossa vida, apenas a montamos com peças fictícias. A arte que deveria ser um entretenimento, uma representação da realidade, passou a ser reproduzida no mesmo plano real. Ao meu ver, caiu a máxima de que “ a Arte reproduz a vida”.  A vida se tornou copiadora da arte. Vemos hoje uma arte que reproduz a si mesma. Mesmo que, em vezes, a ficção não seja tão fiel à realidade, na nossa cabeça, estamos sempre tentando aproximar ou encaixar a nossa história em algum filme. A arte de viver não recebe novas contribuições, agora é a vida de ser artista que importa.

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"It’s not that I don’t appreciate my life sober, but it’s like there are two different people battling inside of me. I want to be good, do good, be a worker among workers, a friend among friends. But there’s also this part of me that is so dissatisfied with everything. If I’m not living on the verge of death, I feel like I’m not really living."

- Nic Sheff, Tweak (via allegorys)

(via allegorys)

Source: hermostbeautifulself
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Brainchild.